

Era uma manhã ensolarada de primavera.
Diversos mortais se reuniam em frente à ascensão montanhosa que precedia uma grandiosa acrópole. Uns juntavam as mãos entre os dedos entrelaçados, outros tinham os olhos fechados e, em silêncio, entoavam suas preces.
Mas a maioria, em busca de alcançar a luz divina, erguia os braços e os rostos em direção à sucessão de pequenos santuários no topo mais alto do morro, onde podia ser enxergado o principal templo ornado em prata e ouro.
— Ó, lady Atena — diziam uns.
— Grande Deusa da Sabedoria — murmuravam outros.
— Nos conceda tua luz! — finalizavam em uníssono. — Nos conceda tua luz! Nos conceda tua luz!
O coro, aos poucos, se tornou poderoso o suficiente para se passar pelas colunas verticais responsáveis por sustentar a enorme construção para onde tais pedidos eram endereçados.
Do interior, por um corredor largo e iluminado por chamas douradas, a bela figura trajada em um vestido branco com adornos arroxeados caminhou sem causar qualquer ruído nas passadas firmes, contundentes.
Os ouvidos passaram a receber com clareza a mensagem de seus fiéis. Até que atravessou as grandes portas, escondidas pelas elevações da natureza, sendo recebida pela luz da estrela da vida no topo do céu anil.
A mulher, cujo longo e ondulado cabelo roxo passou a esvoaçar ao vento fresco vindo das árvores próximas, abriu os braços e deixou que os tecidos presos aos braços fizessem o mesmo.
Sentiu-se extremamente revigorada, a ponto de exalar um forte arquejo.
— É chegado o momento — murmurou para si, mirando as montanhas mais distantes, contornadas pela luminescência solar.
Em destaque, um relevo enorme se destacava no horizonte, distante o bastante a parecer uma pintura desbotada em volta das nuvens e da bruma natural, resquícios da última madrugada.
Sem pensar além do necessário, a Deusa da Sabedoria — em pessoa — prosseguiu com o avanço inaudível por tudo e por todos ao seu redor ou abaixo de si. Sem ser vista pelos atenienses que seguiam devotando suas preces, ela tomou o caminho superior rumo ao destino de cada dia: o Monte Olimpo.
Não demorou a chegar até a majestosa montanha localizada na região superior da cidade de Olímpia. Atravessou o portal de pedras que indicava a travessia entre o “mundo mortal” e o “mundo divino”, e subiu as escadarias prateadas até alcançar a região celestial, acima de nuvens brancas especiais que serviam como uma “divisória” responsável por outra separação entre os seres de luz e os que viviam sob suas sombras.
Após minutos na jornada por meio dos saguões redondos e semiabertos cercados pelo límpido azul do céu, chegou ao que seria o último andar. Deu a volta a fim de encarar a paisagem que tinha à sua disposição por breves segundos; pôde ver não só a extensão de Olímpia logo abaixo, parcamente coberta por diversas nuvens, tal como foi capaz de encontrar o extensivo tapete aquático a quilômetros, banhando os entornos daquele pedaço do continente helênico.
Iluminado pelo sol, era um deslumbre sem igual do qual trazia fôlego extra para Atena, que respirou fundo antes de prosseguir ao corredor no caminho oposto. Passando pela extensão com luminárias de fogo branco presas às paredes, ela se deparou com enormes duas portas de prata, cujo topo de cada uma era entalhada por um símbolo de um alfa e um ômega entrelaçados.
Sem delongas, empurrou-as com as palmas das mãos, causando o rangido derradeiro de suas aberturas. Foi recebida pelo recinto, um salão retangular que possuía aberturas nas laterais entre as grandes colunas de gesso perfiladas, por onde a claridade do dia adentrava e a brisa fresca fazia as cortinas brancas, de aspecto praticamente transparente, menearem com graciosidade.
Havia, mais adiante, uma grande piscina cristalina afundada no piso. Após ela, a disposição de tronos que misturavam foleados de prata e ouro; cinco à esquerda, cinco à direita, e um décimo primeiro isolado no centro, diante de escadas cobertas por um tapete vermelho.
Essas escadas levavam ao piso superior, onde o décimo segundo e último assento residia, ocupado por um homem. Esse homem tinha cabelo branco, a cair até os ombros com alguns cachos rebeldes que se uniam à barba de igual tom, semelhante a nuvens a cobrirem a garganta.
Vestindo nada além de um pedaço de pano branco a cruzar o torso robusto, ele afunilou os olhos azuis ao observar a entrada da mulher de cabelo roxo-escuro, que se aproximou até ultrapassar a piscina ao literalmente andar sobre suas águas.
— Saudações, meu pai e senhor — mesurou ao deus, se posicionando diante do trono central antes da escadaria.
Zeus, o Rei dos Deuses e Deus do Céu, franziu o cenho.
— Sem a Minerva Áurea, criança?... — Soltou um resmungo. O rosto se apoiou sobre o punho cerrado do braço flexionado sobre o apoio lateral do trono.
— Não senti necessidade de equipá-la para este caso, se me permite dizer. — Sempre cordial no tom de voz e no semblante sorridente, a sábia divindade levou a mão direita aberta à altura do seu peito. — Creio que possa exercer meu dever como conselheira dos Doze Tronos de igual modo.
— Hmpf. Falastrona e petulante como de costume, criança. — Zeus fechou os olhos, aborrecido, mas balançou a outra mão em um gesto de desleixo: — Fale logo o que veio falar.
— Como deseja. Pois, como combinado, daremos início à resolução dos imbróglios que acometem vossos domínios...
Atena fechou e abriu os olhos, revelando um novo ar de misticidade em sua mera presença.

A jovem arrumou-se com um vestido cinza-escuro, sem alças superiores, para depois passar uma manta de forte tom de púrpura pelo centro do peito, a cair no restante do torso.
Passou o cinto de couro com o detalhe na fivela de uma flor de narciso onde, no centro, havia uma caveira. Depois, com dois laços pretos, amarrou o longo cabelo ruivo em duas caudas gêmeas nas laterais da cabeça, a escorrerem sobre os ombros.
Por fim, vestiu suas sandálias de cabedal e caminhou até a penteadeira encostada à parede do quarto, iluminada por uma lamparina no topo, que queimava em um fogo roxo mais claro.
Apanhou um bastão preto e vermelho, colocou-o na lateral da cintura e encarou-se no espelho ligeiramente encardido. Respirou fundo e, após alguns segundos vidrada com os olhos vermelhos, semelhantes a lindas pedras de rubis lapidadas, no próprio reflexo, deu meia-volta e deixou o cômodo.
Foi pelo corredor rumo à saída do grande templo de paletas predominantemente escuras. Após passar pelo rangido intenso das grandes portas metálicas, virou o rosto à esquerda, a um caminho ainda mais aprofundado na escuridão daquele lugar.
Mesmo assim, sua visão, capaz de atravessar as trevas, fitou outro enorme santuário ao longe, protegido por um animal adormecido no topo da construção, acorrentado pelas suas três cabeças caninas.
— Estou indo, papai — murmurou mais para dentro do que para fora.
Feita sua despedida quase introspectiva, virou-se à direção oposta e caminhou até uma longa escadaria rumo ao topo.
Levou pouco tempo, porém, para completar o caminho dos degraus negros e irregulares. O destino foi um grande portal circular, cuja passagem dava a uma mera parede recheada de chapiscos bem pronunciados.
Ao parar à frente da abertura, descansou a palma com delicadeza sobre o ornato de pedras frias. Fechou os olhos e se concentrou, elevando e transmitindo a energia calorosa que corria dentro de si para a abertura.
Foi assim que, aos poucos, a imagem da parede passou a ser suplantada por uma camada luminosa. Essa tomou forma definitiva ao mostrar a verdadeira passagem.
A garota recuou o palmo e avançou sem pensar duas vezes, chegando ao outro lado. Agora cercada por uma espécie de túnel de diversas cores — todas pertencentes ao arco-íris —, andou com leveza até contornar o grande relevo montanhoso e sair, enfim, para o exterior.
Recebida pelas luzes solares, ela ergueu o rosto, de maneira a observar a extensão inconcebível do Monte Olimpo. Ainda tinha a tarefa de subir aquilo tudo, pensou sem muito ânimo, mas não havia qualquer outra coisa a ser feita.
Tomou as escadarias da entrada central sem olhar para trás e passou a construir o caminho definitivo rumo ao topo. Dessa vez, levou bons minutos até passar pelas nuvens que cortavam — e bloqueavam — a passagem vinda de baixo até os salões superiores.
A chamada zona celestial foi acessada, oferecendo a ela seu passaporte para o objetivo: o último andar. A partir daquela parte, passou a ouvir uma melodia entoada em coro por três belas vozes, a reverberar por todo o resto daquela extensão.
Sem se cansar, nem mesmo derramar uma gota de suor, ela foi conduzida pelo canto gracioso até o destino. Atravessou o longo corredor iluminado por chamas brancas e se deparou com as enormes portas brancas com adornos metálicos já característicos.
Ameaçou empurrá-las para as abrir, mas travou no instante que os dedos ficaram a centímetros de tocar a superfície. Então, recuou o braço até trazer a mão de volta ao peito.
À medida que buscava recompor o equilíbrio da respiração, perdeu um tempo para reunir coragem suficiente em prol de fazer sua entrada no salão.
— Está... tudo bem — murmurou para si, de novo. — Você consegue. Você consegue...
Ergueu o olhar levemente entrefechado, prestes a tomar alguma dose de coragem para...
— Ei, Lilith.
A voz do garoto veio por suas costas, mas ela sentiu próxima o suficiente do pé de seu ouvido.
Num sobressalto repentino, Lilith se virou, a feição atordoada através das sobrancelhas contorcidas e a boca aberta. Encontrou, então, a presença do rapaz de cabelo despojado, que vinha de mãos dadas com sua irmãzinha de cabelo mais despojado ainda.
— D-Damon!? — Ainda tentando se recompor do susto que lhe arrancou do momento de concentração, sentiu um rubor forte subir o rosto, que corou. — O que você...!? Por que você ainda ‘tá aqui fora!?
— A gente chegou na mesma hora, né? — Damon abriu um sorriso provocativo. — ‘Tava te esperando abrir as portas, mas ‘cê ficou parada do nada, achei que tinha dormido ou algo assim. Ou ‘cê ‘tava nervosa?
Ela pegou ar ao ouvir a instigação do rapaz, mas quando pareceu inclinada a responder de forma ainda mais efusiva...
— N-não estava nervosa. — Ela se controlou e virou o rosto, tirando risadas da garotinha que vinha na companhia dele.
— Eu também fico nervosa quando venho entrar no salão do papai.
Com as palavras de afago de Daisy, Lilith voltou o olhar em sua direção, conseguindo conter em partes toda a corrente de fervor despertada pela aparição repentina do olimpiano.
— Então você também veio, Daisy.
— Sim, Lilizinha! Fazia um tempinho que a gente não se via, né!?
Ao receber o sorriso contagiante da pequena de anteninhas superiores, a jovem vinda do mundo inferior encontrou a paz definitiva em prol de superar tanto o nervosismo da visita quanto a agitação da brincadeira feita por Damon.
— Bem, eu não ‘tava mentindo quando disse que chegamos na mesma hora. — Ele avançou, por fim, ficando ao lado da garota. — Vamo’ nessa?
À indagação, dessa vez numa abordagem mais amigável — o sorriso dele quase desaparecia —, Lilith assentiu em silêncio e se virou de volta às portas.
Um de cada lado, portanto, empurrou-as sem fazer muita força, deliberando o intenso rangido que invadiu o recinto iluminado pela própria luz da manhã.
O salão era semiaberto, com as colunas de sustento nas laterais cobertas apenas por cortinas quase transparentes, esvoaçantes por conta da brisa vinda de fora.
Assim que entraram, os três prontamente reconheceram a presença de outro trio de figuras. A primeira era a de outro garoto, o que despertou de imediato a dubiedade dos novos visitantes; ele estava de pé, quase no meão do local, e virou o rosto por cima do ombro a fim de verificar quem entrava.
Depois dele, havia dois detalhes extras a serem percebidos; uma piscina retangular e desprovida de ondulações, cercada por um total de onze cadeiras, sendo cinco de cada lado e uma no centro — essa que era preenchida por uma mulher.
A própria Deusa da Sabedoria, Atena, contemplou a entrada do trio com um sorriso leve no rosto caucasiano.
— Sejam bem-vindos — entoou sem rodeios, conforme eles se aproximavam de onde o rapaz de cabelo prateado se postava. — Estão cinco minutos atrasados, entretanto.
— Foi mal, foi mal. — Damon demonstrou maior impaciência ao responder.
Lilith encarou-o de canto, apenas, não dizendo nada a respeito da pequena bronca da superior. Afinal, seu foco primordial se segurou na terceira presença antecedente do local.
Esse estava em um trono à parte, localizado no piso mais alto daquele lugar, acessado por uma escadaria coberta por um tapete avermelhado. De longa barba branca, semelhante a nuvens, o robusto se cobria apenas com um pedaço de tecido de igual cor, a atravessar parte do torso.
Seus olhos azuis, intensos, encaravam os jovens presentes em absolta quietude. Um nível de tensão natural surgia neles, mas conseguiam manter a compostura perante o julgamento infindável da majestade única em seu nome.
— De todo modo, todos estão aqui. — Atena virou o rosto, os olhos esverdeados na direção do imponente. — Podemos começar, meu pai e senhor.
O Rei dos Deuses, Zeus, retrucou novamente com o silêncio.
Damon arriou as sobrancelhas, mudando o semblante mais leve de outrora, ao encará-lo sem o mesmo nervosismo de sua companheira em paralelo.
— Ah, antes disto, se me permite: — A deusa acenou com a mão esquerda. — Venha, Daisy.
Um pouco tensa como os demais, a garotinha, ao ser convocada pela sábia, retomou o sorriso animado e recebeu o aceno positivo de seu irmão. Soltou a mão dele e correu rapidamente, dando a volta na piscina para chegar até o trono.
Sem pensar duas vezes, sentou-se no colo de Atena, ficando com a cabeça bem abaixo do queixo dela.
— Pronto. Agora sim podemos começar — retratou-se.
— Você e essa sua mania de agir antes e perguntar depois, criança — resmungou, por fim, a voz grave de Zeus.
— Eu pedi permissão antes, meu pai e senhor. — O sorriso triunfante da deusa manteve-se inabalável à bronca. — Além disto, como sendo a principal indicada ao futuro posto de apóstola dentre todo o panteão, é prudente que Daisy comece a se habituar às reuniões respectivas, não concorda?
Contrariado de uma forma que somente a Deusa da Sabedoria era capaz de fazer, o deus dos deuses ficou sem ter o que dizer a respeito e resumiu-se a fechar as vistas e soltar uma bufada nada contente.
— Portanto, daremos início à presente reunião da Corporação dos Deuses. — A voz dela cresceu em intensidade, quase capaz de ecoar pelo recinto. — Os convocados atuais são: Damon, Lilith e Silver.
“Silver?”, Damon mirou de lado o rapaz em questão. “Quem é...?”, mirou-o quase de cima à baixo, até que percebeu as marcas de tridente em partes de sua vestimenta.
— Ele é um Classe Prodígio, semelhante a vocês — respondeu a dúvida, como se pudesse ler sua mente. O olimpiano voltou a fitá-la, nada surpreso, mas incomodado. — Como encontra-se desprovido de uma dupla atualmente, resolvi convocá-lo a fim de auxiliá-los nesta tarefa.
Damon somente aceitou a informação, voltando a dar uma última encarada de lado no jovem prateado, que sequer devolveu a olhadela.
Por outro lado, Zeus segurou a bufada característica que daria na sequência. Afinal, apesar de já ter se acostumado, sempre demonstrava incômodo ao ser acometido por mais um dos “testes” feitos pela filha.
— Indo diretamente ao ponto, os três foram convocados no intuito de resolver um problema conhecido ultimamente: o caso de desaparecimentos de navegadores mercantes.
— Ué. — Damon torceu uma sobrancelha. — Não em Olímpia inteira?
— Este é um caso, obviamente. Todavia, é capaz que estejam ou não correlacionados. O objetivo para tal tarefa é desvendar isto igualmente. — Ergueu a mão direita, como se segurasse uma taça. — Há uma forte equivalência acerca das constantes súplicas direcionadas às altas divindades de nosso panteão. Entretanto, elevou-se consideravelmente a torrente de pedidos e oferendas realizadas ao Deus dos Mares. Portanto, optamos por aprofundar as investigações a respeito, enviando alguns de nossos apóstolos mortais. Contudo, desde então, nenhum deles regressou.
Aquilo era o necessário para entregar aos jovens a seriedade da situação. Afinal, mesmo sendo mortais, membros da Corporação dos Deuses logravam de capacidade para resolver diversos tipos de problemas, até os que exigissem um pouco mais de dificuldade.
Diante da informação passada pela deusa, Daisy perdeu seu sorriso, abaixando a cabeça com pesar.
— A exceção que solucionou o caso... — Ergueu, então, seu dedo indicador. — Um dos principais navegadores olimpianos teve a sorte de sobreviver e conseguiu escapar. Perante sua conquista louvável, fomos aptos a traçar esta preparação.
— E...? — Damon começou para que a mulher completasse:
— As responsáveis são vetustas criaturas que, uma vez, receberam a oportunidade de advertir os fiéis olímpicos em nome do panteão: as Sirenas.
— Nunca ouvi falar — resmungou Damon, trocando rápidos olhares com Lilith, que consentiu em silêncio.
— Natural, pois elas foram exiladas há algum tempo, antes que tivessem a oportunidade de conhecê-las. Em sequência a isto, elas se abrigaram na Ilha Methana, onde aparentam permanecer até os dias de hoje. — Reergueu a mão, dessa vez com a palma para baixo, mirando o trio à frente. — A tarefa de vocês é navegar até a respectiva ilha e eliminar este problema.
As sobrancelhas do garoto estremeceram ao ouvir a delegação da mediadora.
— Achei que esse tipo de “trabalho” era só pros veteranos. — Semicerrou as vistas escuras.
— Precisamente. Contudo, estamos sem opções para tal incumbência imediata. Em virtude disto, com o aval de meu pai, será prudente que deleguemos esta confiança a vocês. — Ela que aproximou os cílios dessa vez. — Não há necessidade de que se preocupem com fatores alheios. Vocês foram escolhidos por estarem devidamente preparados. Isto é tudo.
Damon estalou a língua, um tanto cínico.
— Sei, sei. — E levou a mão à nuca, a coçando de maneira a despentear mais os fios rebeldes. — A gente já vai ter que ir, né? Eu vou pegar minha espada.
Deu a volta, sem pestanejar, e caminhou até as portas. Atena olhou para Daisy em seu colo e permitiu que ela saltasse dali a fim de acompanhar o irmão no retorno. E assim a menina fez, correndo da mesma forma que quando foi até o trono.
— Sim. Há uma embarcação especial atracada no porto. Ela será a responsável por conduzi-los até a ilha.
Lilith ergueu a mão, no desejo de falar:
— E isso não é perigoso?
Enquanto Silver também se corrupiava a fim de deixar o cômodo especial, Atena respondeu:
— Como disse, não há necessidade de preocupações. Vocês não serão descobertos facilmente. Apenas prezem por se resguardarem até estarem em condições de confrontarem o problema. Não logramos de uma passagem direta até esta ilha, afinal.
Sem virar mais para trás, Damon enfim puxou as aberturas metálicas e retornou ao corredor, com Daisy se juntando a ele após a corrida rápida. Silver foi o próximo a passar e, antes das portas se fecharem de novo, Lilith fez que sim com a cabeça e tomou o mesmo caminho.
Tão rápido quanto a chegada do grupo, o salão mais alto do Monte Olimpo voltou a ficar vazio, apenas com a presença das duas divindades superiores.
Assim que o som da batida das portas se proliferou em meio ao novo silêncio, a sábia exalou um suspiro.
— Então, criança — resmungou Zeus. — Vai me explicar as razões para ter os escolhido ao invés de Héracles, ou continuará escondendo essa informação de mim achando que sairá por cima?
A deusa sentiu a ameaça clara no timbre vocal do deus, portanto sequer imaginou a possibilidade de fazer o que ele havia dito.
Virou apenas o rosto sobre o ombro, oferecendo uma parte de seu semblante sereno, com o sorriso tênue de praxe.
— É verdade a justificativa da ausência de possibilidades. O que também me motivou pessoalmente a escolhê-los foi a potencialidade instigante que eles carregam. É a oportunidade perfeita em prol de calejá-los e refiná-los a fim de se tornarem emissários confiáveis em um curto ou médio prazo.
As sobrancelhas do deus dos deuses, também alusões naturais a nuvens brancas, se remexeram com a resposta convincente — e convencida — de sua filha.
— E há algo a mais que deseja me dizer?
— Sim. Peço encarecidamente que observe com atenção sobre o que se desenrolará em breve. — Ela se levantou do trono, se mostrando confiante além das próprias palavras ou do sorriso que se tornou mais intenso ao virar-se por inteiro a ele. — A nova geração tem muito a nos oferecer. Daqui em diante, alçaremos voos tão esplêndidos quanto jamais fomos capazes.
Com a finalização sem precedentes da deusa, num impacto inesperado, o Rei dos Deuses voltou a se resguardar em quietude. A aceitação era a única saída para ele no momento, imaginou consigo.
E depois de pedir sua permissão velada, a Deusa da Sabedoria prosseguiu com suas passadas inaudíveis até reabrir as portas e ser envolvida pela iluminação do corredor condutor ao saguão externo.
Quando chegou no guarda-corpo de gesso que circundava o espaço circular inteiro, foi recebida pela vista para o céu e a cidade de Olímpia inteira, além de outras pólis limítrofes e os mares que banhavam o continente.
— É o chegado o momento — repetiu a frase entoada para si própria na saída de Atenas.
De olho na extensão inalcançável daquele lugar, esboçou o sorriso mais ambicioso, de curvas acentuadas dos lábios, que nada além daquela paisagem poderia contemplar.


