

Depois da reunião, cada um seguiu à sua respectiva morada com o objetivo de se prepararem para a partida.
Damon retornou com Daisy até terceiro andar mais alto do Olimpo, onde moravam. Enquanto a menina foi até a cozinha beber água, o rapaz adentrou o quarto e apanhou um objeto longo sob sua cama.
Da bainha de couro escuro, retirou uma grande espada que possuía a empunhadura detalhada com o rosto de um dragão e suas asas nas laterais. Encarou-a durante alguns segundos, podendo ver a própria faceta sisuda sendo refletida na lâmina bem polida. Então, voltou a embainhá-la para trazer a alça do estojo ao torso, posicionando-a a cobrir as costas em uma pequena diagonal.
— Queria tanto poder ir com vocês...
A voz de Daisy, um pouco mirrada, puxou sua atenção à entrada do âmbito aclarado. Sob a passagem entre o quarto e o corredor, ela levou as mãos ao peito, como se para conter a tristeza genuína que expressara pela fala e pelas sobrancelhas contorcidas, de olhinhos semicerrados.
E contaminado pela forte consternação demonstrada pela irmãzinha, Damon caminhou em sua direção delineando os lábios em um sorriso fraco, mas gentil.
— ‘Cê ainda tem que terminar os treinamentos e virar uma Apóstola, maninha. — Levou a mão sobre o cabelo dela, amassando suas anteninhas ao fazer carinho. — Continua se esforçando no seu ritmo que a hora vai chegar logo. Não deixa de dar o seu melhor, viu?
A menina recebeu a gentileza sorridente do irmão sem dizer algo em retorno, apenas ergueu um pouco do rosto e abriu mais os olhos. Encarada por uma faceta tão confiante, Daisy reagiu ligeiramente boquiaberta sem sequer notar.

Em um impulso sublime, a mão livre resolveu viajar, vagarosa, em direção à testa dele. Os dedinhos esticaram, porém, antes de conseguir tateá-lo, resolveu recuar. Balançou a cabeça na horizontal, duas vezes, antes de levantar os lábios rosados envolvidos pelo rosto alvo. Na desistência da ação primordial, lhe abraçou com força, num entrelaço dos delicados braços em seu pescoço.
— Eu sei, irmão! Não vou deixar de me esforçar!
— Isso aí. Eu não devo demorar, então tente aproveitar com a Atena e faz ela te treinar bastante.
— Pode deixar!! — Daisy quase prestou continência ao responder, com os ânimos renovados.
Depois de compartilharem risadas tímidas, os dois avançaram rumo ao lado de fora. E “falando no diabo”, pensou o olimpiano, assim que abriu a porta para o saguão circular, encontrou a divindade citada no aguardo da dupla.
Bem próxima da balaustrada que demarcava o limite da varanda celestial, escutou o ruído da estrutura metálica e corrupiou-se quase que no mesmo instante. Ao se deparar com o surgimento dos moradores daquele piso, Atena foi recebida pela inédita onda de euforia que havia dominado a expressão e a postura da garotinha.
— Irmãzona! — Correu até a deusa por meio de saltos radiantes, captando um sorriso tenro da veterana.
— Olá novamente, Daisy. — Oferecida a saudação gentil, redirecionou os olhos verdejantes com maior seriedade ao garoto. — Portanto, já está pronto, Damon?
— ‘Tô — replicou com uma bufada, no retorno ao desinteresse.
— Daisy segue demonstrando com afinco o almejo sobre o posto de Apóstola na corporação. Poderia, por obséquio, não a influenciar de maneira errônea com a respectiva atitude?
A indagação de leve teor repreensivo o deixou desconcertado, ao que tirou uma risadinha da pequena.
— Então conseguiu se livrar do velhote sem problemas — desconversou com o rosto distante.
— Lhe prometi que regressaria o quão breve antes. Primeiramente levarei Daisy à minha residência. A concederei ao cuidado de Chloe e Julie. Porém, antes disto...
— O quê? — Cruzou os braços.
— Cá permaneceremos ao limite da alvorada. Será uma fração transitória de seu programa de treinamentos, portanto tomei a liberdade de antecipar isto de vez. — Encarou a pequena. — Deste modo, não haverá possíveis imbróglios entre nosso combinado.
— Então a gente já vai treinar aqui!?
A pequenina realizou preciosos saltos de euforia, à medida que os olhos cintilavam.
— Precisamente. Como seu irmão disse, é viável que aproveitemos as pequenas disponibilidades a fim de avançarmos ao máximo com seu programa.
Conforme Daisy comemorava o novo passo que seria avançado rumo ao grandioso desejo, o mais velho residiu em um misto de contentamento pela felicidade dela e irritação por saber que tinha sido escutado mais cedo. Portanto, apenas torceu as sobrancelhas ao encarar a deusa e pensou o quão maldita ela era com aquelas perspicácias.
Depois da pequena comoção, ele avançou entre as duas. Os olhos escuros pareceram ganhar novo fulgor defronte o belíssimo entardecer, cujo sol já se aproximava da despedida final no limiar do horizonte.
— Damon. Leve isto. — Atena lhe lançou um tecido prateado, que ele apanhou com a palma direita. — Evitará um provável reconhecimento por parte dos mortais.
O garoto encarou aquela que era uma capa longa com capuz. Ficou assim por um tempo, até que a deusa pudesse ler sua próxima ação.
— Não precisa.
Jogou-a de volta, sobre o rosto da irmãzinha e saltou sobre a balaustrada de gesso. Ficou de pé na superfície horizontal entre os grandes pilares e virou o rosto por cima do ombro.
A menina reagiu boquiaberta, de olho na postura superior do irmão. Longe disso, Atena lhe fuzilou através do olhar.
— Damon. — O último chamado de Atena o fez olhar por cima do ombro. — Nem cogite...
Ele, no que lhe concernia, deu de ombros e balançou os dedos indicador e médio sobre a têmpora.
— ‘Tô indo. Deixo a Daisy em suas mãos.
Antecipado a qualquer declamação de uma delas, saltou no declive rochoso e iniciou a descida veloz. Daisy se livrou da manta e correu para o parapeito, debruçou-se com metade do pequeno tronco.
Acenou, efusiva, em despedida com o braço esquerdo.
— Boa sorte na missão, irmãããão!!
A deidade superior observou o prosseguimento do apóstolo pelos rumos do monte abaixo.
— Ele nunca aprende — bufou, mediante um sorriso compelido.
— Um dia vou descer a montanha igual ele!
— Não se disponha às más influências, Daisy. Caso não queira receber uma advertência, é claro.
— Heeein?
Sua reação desiludida, de sobrancelhas arriadas, contrastou com o riso pacificador da mais velha.
Damon prosseguiu, em desprezo às escadarias que concebiam o trajeto correto dentre os saguões espalhados pela extensão olímpica. Saltava um por um, retilíneo, desinteressado com possíveis consequências.
Nessa toada, alcançou o andar final. O restante da trilha resumia-se ao declive franco, arranjado por orgânicas formações rochosas. Sem hesitar, mergulhou contra o aglomerado níveo que dividia o reino celestial do mundo abaixo. Não demorou a acessar as sombras da montanha, precedentes às primícias da grande pólis.
Ao passo que reduzia a celeridade sobre o relevo irregular, chegou no solo sem causar grandes rebuliços. Passada a conclusão da aterrisagem triunfal, encontrou a garota de caudas gêmeas escarlates bem ao lado.
Ela o direcionava um olhar alarmado. Os supercílios alçados e os ombros rígidos indicavam o sobressalto acarretado por sua súbita aterrissagem.
— Ah, Lilith. Já ‘tava esperando? — Acenou com a cabeça, como se nada tivesse acontecido.
Ela respirou fundo, a fim de controlar o desequilíbrio.
— Na verdade, acabei de chegar também.
— Saquei. Então bora?
Trocaram olhares por mais algum tempo. A jovem utilizava uma capa roxo-escura, que a cobria do pescoço aos joelhos.
— Vamos.
O cacheado observou-a dar partida na caminhada à frente. Lhe acompanhou pelo trajeto vazio, um pátio aberto circundado por pequenos templos.
— Estava pensando mais cedo — Lilith mussitou, enquanto encarava o topo celeste. — Faz tempo que não íamos em uma missão nova.
— É mesmo. E sempre fomos eu e você, mas a Atena agora chamou aquele garoto. Deu pra ver que o velhote ficou meio incomodado também...
A ruiva não respondeu à questão resmungada. Focou-se em sustentar a firmeza nas passadas, disposta a alcançar um fino portal luminoso, praticamente invisível à olho nu.
— Acha que vai ser difícil? — Lilith questionou, puxando a atenção curiosa do companheiro.
— Quem sabe... — Ele afunilou o olhar, também mirando o céu em seu mosaico azul-alaranjado. — ‘Tô curioso pra saber como elas são depois de tudo que a Atena falou. Se ela 'tá mandando a gente fazer isso, então ela deve achar que a gente dá conta.
Atena tinha dito bastante sobre o perigo que essas exiladas chamadas Sirenas representavam e suas capacidades foram oferecidas de antemão, mas nada seria mais valoroso do que a prova por conta própria quando as encontrassem.
De todo modo, Lilith o encarou por algum tempo em silêncio e esboçou um fraco sorriso. Aquela resposta dele, por mais descompromissada que fosse, foi suficiente para livrá-la um pouco do nervosismo natural causado pela inédita experiência.
— Vamos dar nosso melhor — disse em resposta, tornando a mirar o trajeto à frente.
Damon percebeu um tom desconfortável na expressão dela, porém optou por conservar o sentimento consigo. Por isso, ao fitá-la de lado novamente, demorou a responder com morosidade:
— É...
Sem dizerem mais nada, os dois adentraram a um túnel espectral luminoso, que alternava entre as sete cores do arco-íris, no intuito de atravessarem toda a distância entre o Olimpo e o porto sem serem importunados por mortais.

Encostado numa grande pilastra de madeira, o jovem prateado contemplava o pôr do sol sobre o Mar Egeu
À exceção de sua cabeça, tinha o corpo inteiro acobertado por uma manta azulada. Conforme os braços cruzados, aguardava a chegada dos dois companheiros em um dos píeres do porto. Nesse meio tempo, o trabalho dos inúmeros homens, dentro e fora do barco mais próximo, preparava tudo para a partida.
O transporte indicado pela Deusa da Sabedoria parecia ter porte suficiente para uma avultada tripulação. Além dos de maior idade, prevalentes na região que disseminava um aroma singular, alguns jovens infiltrados se moviam para lá e para cá.
A falta de experiência podia ser vista em suas expressões fadigadas. Em suma, acabavam compensados pelo homem de cabelo grisalho, posicionado na proa da embarcação. Esse deveria ser o capitão, pensou.
Apesar da distância, fitava seus olhos castanhos com atenção. A firmeza estampada em cada íris dava a impressão de que eram olhos que já conheceram a morte de perto, mais de uma vez. Depois, as cicatrizes espalhadas pelos braços e rosto comprovavam essa sensação.
— Então são eles que vão nos levar? — A voz conhecida desprendeu sua atenção, trazendo incômodo aos ouvidos.
Damon e Lilith surgiram detrás da coluna, logo após o primeiro ter indicado sua indagação. Passado o instante taciturno, o pontual semicerrou os globos cor de mel ao responder:
— Sim. Finalizaram os preparativos agora.
Os recém-chegados passaram a acompanhar as atividades dos navegadores disponíveis. Concentrado em guiá-los, o grisalho percebeu a reunião do trio encapuzado. Embora o objetivo da vestimenta fosse despistá-los, aparentava ter o efeito contrário.
Esse pensamento rápido seguiu à virada de rosto dele para eles, à execução de um rápido aceno com o braço.
— Acho que é o sinal para irmos — disse a garota, o dedo em riste na orientação do mortal.
Num consenso, os apóstolos partiram à embarcação, ao passo que os marujos terminavam de arriar as velas.

Algumas horas se passaram.
As estrelas começavam a surgir, revelando suas resplandescências pulsantes na escuridão celeste. O navio zarpado do porto de Olímpia já se situava em navegação no Mar Egeu.
— Louvado seja lorde Poseidon. O mar está tranquilo essa noite.
O timbre rouco do capitão entoava confiança perante o oceano.
Após utilizarem as próprias forças para remarem até colocar o transporte em movimento, os homens foram dispensados e puderam descansar abaixo do convés. Junto a ele, postado ao lado da estátua na proa, Damon observava o céu.
Podia sentir a encarada de soslaio que vinha ao lado, conforme segurava a toca para que não esvoaçasse com o vento frio. Do ponto de vista do mortal, sua presença exalava tamanha austeridade a ponto de atrapalhar qualquer tentativa de comunicação. E não calhava somente a si.
Os outros acompanhantes transmitiam sensações distintas, porém niveladas à uma influência dominante. Silver não demonstrava preocupação ao repousar na borda para o casco lateral, de olho nas águas obscuras.
Por outro lado, Lilith descansava grudada a um dos mastros, os olhos semicobertos pelo cabelo estavam cerrados. Receoso em virtude do absoluto silêncio, cortado pelos uivos da brisa e as fracas ondas marítimas, o homem limpou a garganta.
— Vamos... demorar um pouco mais pra chegarmos na ilha que desejam, já que o vento não está tão forte como costuma nessa época. Provavelmente desembarcaremos ao amanhecer.
— Não se preocupe com isso.
Frente a resposta seca do rapaz, conservou-se ao silêncio e engoliu em seco. Passeou com os olhos cansados sobre o porte mediano dele; os braços cobertos não pareciam tão musculosos, embora longe de serem franzinos.
O aspecto mais chamativo provinha da espada, embainhada atrás do torso. Fixou a concentração no cabo à mostra. A faceta do dragão carregava olhos vermelhos. Apesar de reconhecer a beleza nos detalhes, remeteu a memórias nada agradáveis. As chamativas cicatrizes espalhadas pelo corpo pareciam arder.
— Vocês são tão jovens — murmurou, cabisbaixo. — Estão indo derrotar... aquelas criaturas, não é?
O apóstolo o encarou de esguelha. A incompleta atenção foi o suficiente para que trouxesse arrepios à sua nuca, como se fosse uma criança envolvida pela nevasca.
— Conhece essas Sirenas?
Ao arranjar firmeza na postura, exalou um duradouro suspiro e tornou a observar as águas tranquilas.
— Como não poderia conhecer? — Cerrou os punhos, as veias saltaram. — Muitos companheiros meus provavelmente foram vítimas desses monstros. Eu mesmo quase fui...
Afligido pelo cansaço físico e mental, ocasionados por todas as evocações traumáticas, não resistiu a mordiscar o próprio lábio.
— Sobreviveu a elas? — O jovem demonstrou curiosidade ao indagar.
— O Canto delas nos atraiu. Toda minha tripulação anterior foi dizimada. Era só uma, mas... — Agora, rangia os dentes, enraivecido. — Consegui fugir vivo por sorte. Orei tanto aos deuses! E mesmo assim apenas minha vida foi poupada.
— Então, por que aceitou levar a gente? Não tem medo?
— Medo... sim, tenho muito medo. — Encarou a palma esquerda, recheada de marcas lacerantes. — Mas eu recebi uma visão nesta manhã. Tenho certeza de que foi uma mensagem dos bons deuses!
O apóstolo não reagiu diante do discurso eufórico. Com a chave virada em seu coração maltratado, o marujo deu procedência ao encarar a estátua feminina no centro:
— Eles me disseram que iria terminar. Todos os paradeiros, o sofrimento... tudo iria terminar caso eu vencesse meus medos e fosse até elas de novo!
Projetou um sorriso trêmulo ao findar a declamação. Apesar da sinceridade nos dizeres, não foi apto a ocultar o temor mascarado na face desgastada.
Em respeito a isso, o garoto mussitou na vertente da limpa abóbada:
— Isso vai terminar. Seus companheiros e todas as vítimas vão poder descansar em paz.
A mistura entre seriedade, confiança e influência nas palavras do descendente divino contaminaram o capitão com uma ternura indescritível. Apesar da experiência carregada pela idade, sequer percebeu os próprios lábios afastados.
A tal visão que afirmou ter recebido, a aura irradiada por aqueles jovens... tudo parecia se encaixar, aos poucos. De todo modo, as preces contínuas poderiam, enfim, estarem sendo atendidas. Alguma resolução para que tanta dor fosse expurgada, enfim, estava em curso.
Em suma, não aguentou as estribeiras ao contemplar a figura protetora feita, em boa parte, por mármore. O sorriso sinuoso estremeceu, as mãos marcadas por tantos traumas entrelaçaram-se e os cílios conectaram-se com sutileza.
Na presente postura, delegou sua prece às boas divindades. O enviado pelos deuses o mirou, taciturno, enquanto prestava seus agradecimentos através de singelos sussurros. Inapto a esboçar qualquer reação, resolveu deixá-lo a sós no momento pessoal.
Extasiado, logo se despediu e regressou ao dormitório inferior do convés.
“Então é assim que eles imaginam a Atena?”, Damon permaneceu de prontidão na proa, contemplando a estátua delegada à Deusa da Sabedoria.
Em virtude da breve história contada pelo senhor, passou a cogitar as chances de serem surpreendidos ainda em alto-mar. Possuía o companheiro prateado, apesar do respectivo situar-se tão concentrado na água escura quanto no interior da embarcação.
Caso algo ocorresse, no mínimo, lograria de contar com seu auxílio. Todavia acabou por interromper os devaneios, no instante que os ouvidos foram invadidos por um estranho burburinho. Logo imaginou quem deveria ser...
— Se eu dissesse que fiquei tocada com essa conversa, você acreditaria?
Lilith se levantou após despertar do cochilo. Delongou-se ao esticar os braços, conforme aproximava-se do rapaz no topo.
Ele se virou pela metade, a encarar as esferas oculares da parceira. Assemelhavam-se a faróis escarlates, acesos mediante um efêmero brilho circundado pela escuridão noturna. Subiu os degraus e postou-se ao lado dele.
Tirou o capuz e deixou as caudas gêmeas menearem, graças ao vento gelado que vinha do domínio aquático na extensão. Levou alguns fios rebeldes, com os dedos, sobre a orelha.
Por fim, respirou fundo o ar fresco, repleta de elegância.
— Então você finge estar descansando pra bisbilhotar os outros? Isso é bem feio, sabia? — O jovem voltou a encarar o trajeto.
— Eu estava realmente descansando. Acontece que acordei ao ouvir a conversa. — Posicionou o indicador abaixo do queixo. — Ele é realmente bem corajoso. Mesmo pra um mortal, chega a ser louvável.
O silêncio tornou-se predominante por um milésimo. Damon regressou a fitá-la de soslaio, enquanto ela já o fazia. Os olhares se cruzaram e assim permaneceram durante um período superior.
No fim, a apóstola optou por escapar do contato. Por alguma razão, ele experimentou uma torrente estranha lhe sacudir o peito. Embora habituado a contemplá-la, sua companheira de longa data, passava a perceber pormenores inéditos estampados em sua feição sossegada.
Um bocado atônito, desconversou:
— Não vai voltar a descansar?
— Infelizmente estou sem sono algum no momento.
Ela ergueu o queixo, buscando exalar um ar triunfante — e desviar o foco do estranho embaraço. A despeito de sua faceta resoluta com a resposta, o jovem não se sentiu tão convicto quanto aquelas palavras. Aquilo lhe arrancou um sorriso quase indecifrável.
Pela segunda vez, a ruiva esticou o torso, soltando um uivo baixinho em deleite à execução do deslocamento. Ambos continuaram ali, sem qualquer sinal de terra à vista durante o lento proceder. Ao passo que nada ocorria, o tédio ganhava corpo. A jovem estava ciente com relação à arremetida apenas ao amanhecer, graças à observação do diálogo anterior.
E isso servia, única e exclusivamente, para fazer sua ansiedade crescer...
— Eu vou ficar acordada contigo até chegarmos — disse mais para si do que para o garoto.
— Vai, é? — E ele franziu as sobrancelhas.
— Estou bem habituada a fazer isso pelas madrugadas.
Disposta a cumprir a própria declaração, bateu pernas e ficou na proa.
Damon continuou a encará-la, incompreendido quanto as circunstâncias que a levaram a tomar tal atitude. Restituída a quietude, cortada pelos ruídos do transporte em movimento, restava ao trio aguardar paciente até o desembarque no destino.
No fim das contas, mesmo perante a insistência da aliada, o apóstolo já sabia como aquilo deveria terminar... Menos de uma hora se foi, o suficiente para que a garota eletrizada sucumbisse à sonolência. A cutucou, com cuidado, no braço adjacente. Confirmou o estabelecimento de seu profundo estado de sono.
Preferiu deixá-la quieta. Notou suas olheiras fundas sob os olhos fechados, tendo a compreensão de que aquele período lhe seria proveitoso, fora dos domínios olímpicos.
Sem perturbações, poderia dormir o quanto pretendesse até o amanhecer.


