



A menina abriu os olhos da cor do céu límpido e encontrou um ambiente singular: todo o espaço ao seu redor era tomado pelo branco.
Com o decorrer incessante dos segundos — embora a definição de “tempo” naquele lugar fosse uma incógnita —, sua visão, ainda levemente embaçada, passou a entender alguns detalhes inéditos no espaço estranho.
Por mais que não houvesse qualquer sinal de construções e natureza por si só, viu que era diferente no topo. Um degradê alternava o domínio puro para uma tonalidade intensa e escura, recheada de partículas brilhantes multicoloridas.
“Estrelas?”, se questionou conforme punha-se de pé, ainda que também sequer reconhecesse a existência de um solo abaixo.
E assim permaneceu durante mais algum tempo, até se certificar de que, sim, eram estrelas. Pulsantes em magnitudes diferentes, começaram a se revelar proliferadas por toda a extensão superior.
Outros detalhes, então, passaram a ser reconhecidos. Havia uma extensa e brilhante faixa de tons amarelados com toques leves de rosa, azul e roxo, que atravessava toda aquela dimensão.
Ficou encantada com tamanho deslumbre, mas, ao mesmo tempo, um aperto envolveu seu peito. Engoliu em seco com força, à medida que um arrepio indescritível lhe dominou a espinha.
O pior: era extremamente familiar.
Ela girou sobre o próprio eixo, fazendo a borda do vestido também branco dançar sobre os joelhos. Depois de completar o rodopio, ela enxergou o provável — certeiro — motivo do despertar daquela insólita ansiedade.
Em união efêmera com a luz e a escuridão, havia um ponto tão sublime quanto. Uma silhueta que flutuava alguns metros acima de onde havia se levantado.
Não demorou muito até distinguir seus contornos humanos da cabeça até a cintura, onde um borrão estranho, semelhante a um véu de névoa, cobria o resto do “corpo”. De toda forma, era o suficiente para roubar sua atenção em absoluta integridade.
Mesmo aflita, ela acabou dando um passo trôpego à frente, movimento que seu cérebro demorou a reconhecer. Quando o fez, arregalou os olhos direcionando-os na direção do pé em questão, até que uma brisa repentina fez dançar seus cachos cor de vinho.
Ao reerguer o rosto e a linha de visão, deparou-se com uma proximidade ainda maior daquela figura, responsável por lhe arrancar todo o fôlego de uma vez.
Quase hiperventilando, a menina sentiu-se tão atraída comparando ao primeiro momento e, de maneira inconsciente, subiu o braço no intuito de esticá-lo. Com a mão aberta, os dedos ligeiramente trêmulos, buscou alcançá-la.
Queria, não, devia a tocar de alguma forma. Era tudo o que seu coração ordenava naquele pequeno momento, parecido a uma arrastada eternidade.
No entanto, quando sentiu estar próxima a isso, paralisou o corpo inteiro. O arrepio singelo tornou-se um calafrio capaz de a arrepiar por inteiro.
Bem diante de seu par de íris trêmulas, ela reconheceu o último e mais profundo detalhe: um sorriso. Naquilo que deveria ser um rosto, brotou um sorriso, gracioso como o desabrochar de uma margarida no adormecer do inverno.
Incapaz de prosseguir, ou mesmo de esboçar qualquer reação que não fosse boquiabrir e alçar as sobrancelhas ao limite da testa, a menina estremeceu.
O frio em seu corpo foi suplantado por uma onda de calor. Todo o medo desapareceu, dando lugar a um suave aconchego dominado por ternura. Sentiu-se segura, como se envolvida por um abraço carinhoso.
Vacilante a ponto de recuar o braço e dobrar os dedos das mãos delicadamente, ela, cuja própria audição podia captar o som das palpitações no interior de seu peito, foi estimulada à expressão de um lamento:
— Você quer... vir também?

A menina abriu os olhos.
Dessa vez, contudo, reconheceu a existência de um teto familiar logo acima, refletor tênue da luz vinda do lado de fora, na passagem de arco logo ao lado de onde se situava deitada na cama alta.
Ainda sonolenta, demorou a perceber dois detalhes importantes na posição atual. O primeiro: o braço direito erguido, discretamente flexionado, com os dedos das mãos entrefechados sobre a palma delicada.
O segundo...
— Daisy...
Foi só notado quando escutou a voz masculina soar do lado oposto à janela coberto por véus quase transparentes, que receberam o impacto de uma brisa fraca no exato momento do chamado. A menina virou o rosto e encontrou o responsável por tais palavras, que soaram num misto de inquietação e curiosidade.
— Irmão... bumdinha — saudou com um nível ainda intenso de sonolência.
Pouco a pouco a turbidez de seu olhar cheio de remelas reconheceu a face caucasiana do garoto iluminada pela invasão luminosa da manhã, assim como seu cabelo vinho-escuro de pontas características pela nuca e as laterais do rosto.
Seus olhos azuis, mais escuros que os dela, a encaravam de maneira intensa. Mas ela, ciente de como aquilo era seu jeito de demonstrar cuidado, sentiu-se confortável para abrir um sorriso com os lábios unidos.
— Teve aquele sonho de novo? — indagou o rapaz.
Daisy levantou somente o tronco, deixando o lençol fino escorrer para as pernas. Ao ficar sentada, sentiu a lufada fresca bater no bagunçado e volumoso cabelo, cujas pontas cacheadas estavam todas despenteadas e dançavam irregularmente ao vento.
Foi a brisa responsável por varrer o resquício de sono que a impedia de despertar por completo. Abriu um sorriso infantil e o encarou com a cabeça ligeiramente inclinada, deixando que os cachos bagunçados descansassem sobre o ombro esquerdo.
— Sim. Mas ‘tá tudo bem, irmão! — Mostrou os dentes por um breve instante ao dizer.
O garoto, ainda um pouco relutante quanto as palavras dela — sua irmãzinha —, exalou um rápido suspiro e acenou com a cabeça em aceitação àquela resposta.
— Sei — murmurou, forçando um sorriso leve de volta. — Se ficar com medo ou algo assim, me fala, ‘tá?
— Eu não vou ficar com medo! — Ela fez beiço.
Por mais que soubesse do incômodo por parte dele, não desejava o preocupar. Afinal, nem havia muitos motivos para preocupação; aquilo tudo não passava de um sonho.
Ele deu uma risadinha presa da retruca infantil dela, então deu meia-volta para ir até um suporte cheio de cabides na parede ao lado da porta única de entrada e saída daquele cômodo — quarto dos dois.
Apanhou um tecido azulado, de tom claro, e o passou sobre o torso que já estava vestido com uma camisa sem manga branca. A manta caiu pela diagonal do ombro esquerdo à cintura direita, ficando presa ao cinto de couro com o detalhe de um raio prateado no centro da fivela simples.
— Vem. Se eu me atrasar mais um pouco, o velhote vai ficar insuportável. — Apontou com a cabeça, abrindo a porta enfim.
— E a irmãzona vai falar: “está cinco minutos atrasado, Damon”. — Fez uma careta ao tentar imitar o modo de falar da citada, engrossando a voz, o que soou um tanto quanto cômico.
Tirando uma risada de canto do rapaz, que mudou para um suspiro lamentoso ao confirmar a autenticidade daquela antecipação, a menina terminou de se levantar da cama. Arrepiou-se de leve ao sentir o frio do piso de mármore ao tocá-lo com as solas descalças dos pés.
Trocou rapidamente o pijama por um vestido branco sem alças sobre os ombros, também cobrindo o torso do ombro à cintura do outro lado por uma manta azulada, essa um pouco mais escura que a do irmão.
Depois de se produzir em velocidade recorde com um enfeite dourado no pescoço e alguns adornos no braço, ela foi até a sala com Damon e sentou-se em uma cadeira de madeira. Ele puxou um pente de dentes alongados e começou a passar pela vasta cabeleira, arrumando os fios soltos e deixando mais destacadas as longas madeixas que terminavam em giros caracóis característicos.
— ‘Tá ansioso pra reunião!? — ela indagou, as mãos apoiadas sobre o assento entre suas pernas que balançavam para frente.
— Não — respondeu rápido, sem deixar de focar no penteado da irmã.
— Mentiroso! — Ela sorriu triunfante, ao que o rapaz consentiu em silêncio. Então, Daisy acusou uma dor ardente vinda do couro cabeludo. — Ai!! Desculpa, eu ‘tava brincando!! Não faz isso!!
— Eu não fiz de propósito. Só não sou tão bom com isso que nem a Atena — bufou, um pouco sentido por ter errado. — Mas eu não ‘tô nervoso. Não sei dizer o que ‘tô sentindo, na real...
Voltando à seriedade, Daisy tentou ver o rosto dele ao virar o seu por cima de um dos ombros.
— Não se mexe, senão vou te machucar de novo.
Ela voltou a ficar de frente assim que ouviu o pedido. Então, passaram-se alguns segundos de silêncio, em que o ínfimo ruído do pente destrinchando o cabelo da garota se fez presente entre ambos.
De repente, ela levantou uma das mãos e a repousou sobre o dorso do palmo dele, que segurava a parte mais baixa de seu cabelo.
Ao sentir o toque, Damon interrompeu os movimentos de penteá-lo e fitou a nuca da menina. Mesmo sem conseguir enxergar sua feição, por algum motivo sabia que ela estava sorrindo.
— Vai ficar tudo bem!
Ao ouvir a voz dela, percebeu a leve diferença do timbre que soou mais profundo do que o normal. Por um instante, sentiu certo descompasso nos batimentos cardíacos; a surpresa de uma nostalgia estranha que subitamente surgiu dentro de si.
Então, para confirmar a sensação anterior, ela se virou com o semblante esperado: um sorriso contagiante, cujos olhos pareciam brilhar em perfeito conjunto à sua graça.
E aquela imagem por si só foi bastante em prol de trazê-lo de volta à realidade de sempre. Em companhia da nova motivação dela:
— Eu sempre vou estar com você, irmão! Então não se preocupa muito, ‘tá bem!? — Fechou as vistas num gesto que fez sua meiguice ser elevada ao quadrado.
Damon não esboçou tanto por sua reação, mas toda a inquietude foi varrida naquela soma de gestos e palavras da irmãzinha. Escondeu um sorriso confiante por entre os lábios conectados, então terminou de arrumar o cabelo dela.
Revigorou-se de tal maneira que acelerou e refinou o processo de desembaraçar a bagunça feita pela última noite de sono da pequena.
— Pronto — comentou até com mais vivacidade na voz. — O que achou?
Entregou um espelho oval para ela, que observou por breves segundos e assentiu contente:
— Sim!! Eu adorei!!
Agora, a natureza ideal de seu cabelo vasto, que alcançava a altura da cintura, se revelou, assim como as duas anteninhas folgadas no topo da cabeleira sobre a cabeça e as mechas curvadas que cobriam suas orelhas.
Feliz por ter sido do agrado dela, o jovem descansou o pente em cima de uma mesinha próxima e estendeu sua mão.
— Então... vamo’ lá.
— Vamos!! — Daisy rapidamente aceitou o convite e deu as mãos com ele.
Os dois foram até a saída da sala, vestiram suas sandálias de cabedal. E o mais velho moveu a maçaneta para empurrar a porta ornada em detalhes prateados e dourados.
Assim, a luz da manhã pôde fazer o caminho derradeiro ao interior do âmbito frio, recebendo-os de forma calorosa para o início de uma nova história.


